Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

"Porque é que não restauraram toda a pintura do Arco Triunfal?"

O visitante João Gonçalves comentou no post sobre o Restauro do Arco Triunfal, levantando uma questão que talvez faça sentido para outros visitantes: "Porque é que não restauraram toda a pintura do Arco Triunfal?" Segue, então, aqui a resposta.

 

A intervenção a decorrer na Charola é de conservação e restauro. Quer isto dizer que valorizamos, de acordo com as actuais normas éticas de intervenção em pintura mural, a conservação da peça realizando acções que suspendam a sua degradação de maneira a poder-mos usufruir delas um pouco mais de tempo e assim legá-las às gerações vindouras. O termo restauro passa para segundo plano porque à sua sombra foram realizadas algumas intervenções bastante imaginativas.

 

Tratar uma pintura é, apenas e só, ter um grande respeito pela peça, conservando-a materialmente sem adições resultantes da nossa visão da obra – isto é, respeitar integralmente o que existe e o que chegou até nós.

Não podemos, não devemos, “terminar” a peça refazendo partes em falta – podemos apenas e fizemo-lo na face do arco, atenuar as faltas/lacunas, o ruído do ausente, de maneira a facilitar uma leitura integral da obra.

Como fazer o que não existe – mesmo que houvesse documentação para tal – e continuar a dizer que estamos perante uma obra maior do século XVII? Teríamos que corrigir para século XVII e XXI. Como respeitar uma autoria se parte da pintura fosse obra de um anónimo “restaurador” nosso contemporâneo?

 

Foram estas linhas que nos orientaram na nossa intervenção e que estão sempre presentes no nosso trabalho. As lacunas em áreas de tom liso foram reintegradas mas todas aquelas que incidiam sobre figuração ou limites indefinidos foram apenas tonalizadas.

 

Relativamente ao orçamento – sabe, com toda a certeza, que um orçamento de conservação e restauro de pintura mural não é feito em função do número de pedras…

 

A Capela Sistina fica em Roma e a Charola em Tomar, muito mais perto de nós – passe pelo Convento e admire a bela Ressurreição.   

publicado por Equipa SAPO às 11:57
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3 comentários:
De InsideJob a 12 de Maio de 2008 às 20:25
Eureca
Bom Trabalho
De Nuno da Mata Almeida a 15 de Maio de 2008 às 15:26
Se não existe documentação sobre as peças artísticas, que permitam completá-las, concordo plenamente que não se refaçam as partes em falta, porque é claramente desvirtuar a verdade histórica da Charola.
No entanto, se há a possibilidade de completar as peças artísticas recorrendo a documentos originais ou referências credíveis, não completar as peças artísticas da Charola é ficar a meio caminho do objectivo que todos nós desejamos, que é ver a Charola no seu esplendor original.
Se temos essa possibilidade, sejamos ambiciosos e não fiquemos inibidos com as "correcções" dos séculos a que obra pertence (até porque parte das próprias pinturas que restauram já não são as que existiam na origem da Charola...). A Charola é uma peça única no Património Nacional, e penso que as gerações futuras gostariam de poder vislumbrar esta jóia do nosso Património no seu esplendor máximo.
De Fernando Oliveira a 16 de Janeiro de 2009 às 13:08
Tudo ficou esclarecido e, claro, é o que mais importa. Contudo, vale a pena "restaurar" o português e não escrever - como se escreveu na 4ª linha do 2º período - «...PODER-MOS... »nem - como no 5º parágrafo - «... NOS orientaram na NOSSA intervenção... ». É muito grave, bem grave, atentar assim contra o património comum da Língua Portuguesa... para a qual tardam acções, credíveis e consequentes, de restauro e recuperação... !
F. Oliveira

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